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Thursday, May 31, 2012

D. Leonor - o martírio de uma grande senhora

                           


(Nos momentos difíceis, costumo fazer o exercício de me lembrar de pessoas de muito mais mérito e categoria do que eu que passaram por transes bem piores e os suportaram com bravura. Não para me comparar, mas para me conduzir de acordo com bons exemplos e suportar as provas do dia a dia com paciência...).

Naquela fria manhã de 13 de Janeiro de 1759, Portugal perdia, da forma mais trágica e sangrenta, uma das suas últimas grandes damas: D.Leonor, 3ª Marquesa de Távora.
 Tinha sido uma longa luta - ainda bem que findava. No cárcere não sentira o alívio das lágrimas; a força necessária para resistir de cabeça erguida tinha-a consumido até à exaustão, como uma corda demasiado esticada. De consciência limpa e despojada dos bens vãos deste mundo, não possuía sequer a desgraçada necessidade de fazer quaisquer disposições. A única coisa que a molestava, que lhe recordava que vivia ainda, era a dor infinita pela sorte dos seus.  Todas as emoções que experimentara -  medo, enxovalho, brio ferido, a mágoa da ingratidão pelos valiosos serviços prestados a El Rei seu Senhor, revolta e indignação de ver tudo aquilo em que acreditava esmagado aos pés daqueles que mais desprezava, por amor de desvarios que a repugnavam até às fímbrias do ser - à hora derradeira mereciam-lhe apenas um sorriso de ironia e desdém. Se algum pecado cometera, fora o do orgulho: nem ela, nem o marido, tinham sabido dissimular e fingir, vergar-se aos que não conheciam senão ambição e cobiça com mesuras e sorrisos, deixar que a honra da sua Casa fosse arrastada pela lama para atender ao capricho sensual de Sua Majestade. Outros que fossem, teriam incitado a paixão do Rei pela sua bela nora, e colhido os benefícios da vergonha. Poderia ter feito outra coisa? Poderia ter agido de outro modo? Conseguiria fazê-lo? Morreria mil vezes, mas procederia de modo igual. Porém, fora também o orgulho, mesclado de cândida confiança, a razão da sua perda: se não tivesse insistido em lutar contra forças tão maiores que a sua, se tivesse convencido a família a exilar-se longe da corte, se não esperasse um comportamento honrado e digno de quem mais devia dar o exemplo...

Muito podem o furor e o vício! 

Que força imparável é um homem determinado a arrastar-se para a perdição - mesmo quando lhe corre nas veias sangue real.

 Via agora que ela e os seus não morriam sozinhos - com eles partia um velho mundo para o qual já não havia lugar. Os valores de antanho arderiam no cadafalso e também eles seria lançados ao vento. Das cinzas às cinzas, do pó ao pó. Honras e grandezas pouco lhe importavam, maculadas como estavam naqueles tempos de pecado e de vaidade. Não tinha mesmo a certeza se desejava estar no mesmo pé dos novos senhores do Reino: os inimigos da Fé, da pureza, das leis mais sagradas. O triunfo deles não chegava sequer a feri-la por dentro. O seu coração habituado a não quebrar também não aprendera a torcer.
   Ao atravessar em silêncio e olhando em frente, sem nada ver, a multidão furiosa, mantinha ainda a beleza que lhe valera o título de uma das três "graças da corte". Gasta, cansada, abatida, com o mesmo vestido que trazia no dia em que começara o seu longo martírio, os cabelos já grisalhos em que ainda se viam vislumbres da esplêndida cabeleira loura, havia na sua resignação evangélica, na sua serenidade inquebrável, uma majestade sobrenatural - como se, privada dos atavios e sinais de grandeza deste mundo, a beleza da sua alma fosse mais evidente.
 Alguns desgraçados, amontoados para a ver passar, escarneciam-na e insultavam-na, abanando a cadeirinha em que a transportavam de mãos atadas, apesar dos esforços da Guarda para conter a populaça. Pela primeira vez, tinham a oportunidade de achincalhar um alvo - habitualmente inatingível-  da sua inveja e ressentimento. Anos de ódios contidos, de injustiças sofridas, de insinuações veladas eram expiados naquele instante, lançados no rosto daquela senhora, mãe e avó, que nenhum mal lhes causara.

                                          "Perdoai-os, Senhor, pois não sabem o que fazem..."

Também o Divino Redentor tinha sido torturado, injuriado, escarnecido e arrastado ao patíbulo...Também Ele não soltara um queixume mas carregara a sua Cruz, sem ter sequer o privilégio - como ela, D. Leonor -  de uma liteira que o conduzisse à morte. 
E no entanto, na assistência que se juntara eram muitos os olhos cheios de lágrimas e os que teriam gritado palavras de conforto ou tirado o chapéu à sua passagem, não fosse o pavor que lhes tolhia a caridade. 
Também o verdugo não sabia o que fazia, quando a passeou pelo patíbulo para lhe descrever, em detalhe, os horrores que iria praticar dali a pouco sobre os seus entes queridos. Quanta crueldade, quanto sofrimento será preciso para deformar uma alma a tal extremo? 

            "Deus permita que saibam morrer como quem são"

Foi a sua resposta numa voz tranquila, clara, firme. E foi sem um lamento que se sentou, como num trono, para enfrentar a eternidade. 

                              " Não me descomponha" - disse ao carrasco que procurava  destapar-lhe o pescoço, para melhor desferir o golpe. 
Foram das últimas palavras que lhe ouviram. Uma oração murmurada e partia para sempre, com a dignidade e bravura da sua estirpe. Apenas quando tudo estava acabado, quando  lhe retiraram a venda, viram que havia lágrimas nos seus olhos cerrados. Finalmente.







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