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Tuesday, May 29, 2012

Spartacus, escravos e lacaios‏

                                              
Finalmente consegui deitar a mão a um exemplar do Spartacus de Howard Fast, que deu origem ao filme de Stanley Kubrick. Tinha lido excertos há muitos anos e a prosa 
fascinou-me na altura, mas nunca o encontrei à venda e por um motivo ou por outro, não me lembrei de o encomendar. Enfim, só tenho pena que os meus afazeres desta semana me tenham impedido de me sentar a ler como gosto, de uma assentada e todo de uma vez. Poucas coisas são tão frustrantes para mim como "petiscar" um livro.
 Fiquei surpreendida pela paixão posta no romance - julgava-o mais asséptico, mais poético, bonitinho. Enganei-me: é cru, visceral, violento, de uma sensualidade brutal. Nada esconde dos corpos nem das almas das personagens - os jogos e regras sociais em que se movem, as suas feias paixões, os vícios degradantes, as aspirações mais nobres - tudo isso desfila ante os nossos olhos com admirável fluidez e poder de análise. Quanto ao rigor histórico, haveria algumas coisas que dizer, começando pela necessidade de isolar os sentimentos políticos do autor para realmente apreciar a sua narrativa. E esta é soberba, se nos abstrairmos das metáforas que pintam Spartacus como uma mistura entre Jesus Cristo e Che Guevara. Sempre achei que saber demasiado sobe o contexto em que um romance é escrito destrói o prazer de o ler, e este é bem o caso. Se o apreciarmos como simples novela histórica, partindo para a sua leitura com um misto de ingenuidade e espírito crítico, Spartacus é arrebatador. De resto, um grão de sal é indispensável para apreciar qualquer adaptação de factos reais, como a  série da Starz  (que apesar de tudo, segue mais de perto a escassa biografia do gladiador, limitando-se a preencher as lacunas históricas com licenças poéticas).


Spartacus- Escultura de Denis Foyatier, 1830 - Museu do Louvre 

  A verdade é que  pouco se sabe sobre o verdadeiro Spartacus: dizem que era Trácio, mas isso também podia dever-se ao estilo em que lutava, o Thraex. Terá nascido livre (o que explicaria muita coisa) ou sido um cativo de guerra; insistia-se que servira como auxiliar no exército de Roma, tornando-se mais tarde desertor e salteador. Foi escravizado com a sua mulher, sacerdotisa de Dioniso (o que aponta novamente para a Trácia ou pelo menos, uma origem helénica). Esta tinha previsto que o marido estava destinado a feitos trágicos e grandiosos. A certa altura, escapou com um número apreciável de gladiadores e outros escravos da escola de Batiatus, em Cápua, iniciando a Terceira Guerra Servil, que faria tremer a República.  
Supostamente morreu em combate, mas o seu corpo nunca foi encontrado. É certo que a maior parte das fontes disponíveis foram escritas muitos anos após a morte de Spartacus - aos seus contemporâneos, não interessava divulgar as tropelias de um simples escravo que andava a virar Roma de pantanas. Como qualquer história excepcional, à falta de dados concretos ganhou contornos de lenda. Ninguém sabe em pormenor como seria Spartacus, o que deixa lugar à imaginação e permitiu que ao longo dos anos, as morais do conto fossem sendo reivindicadas como inspiração pelas mais variadas áreas e ideologias - da política ao desporto. 

            O mito de Spartacus tem apaixonado gerações, e apela a cada um de modo diferente.
A mim encanta-me a figura de um homem que embora forçado à escravatura, nunca cedeu ao servilismo abjecto da condição que lhe foi imposta. Talvez Spartacus fosse um nobre chefe de clã na sua terra, obrigado a servir novos ricos romanos, indignos de lhe limpar as sandálias. Nunca saberemos - mas sabemos que agiu como tal.
 Ninguém está livre de cair numa eventual "escravatura" - situações de força maior em que somos obrigados a tolerar coisas que consideramos injustas ou desagradáveis. Um emprego detestável, um revés de fortuna, pessoas mal formadas em lugares de destaque que esmagam os profissionais sob o seu comando, muitos deles de melhor índole e educação do que a sua. Felizmente estes momentos são transitórios e não uma sentença para a vida, mas o sentimento é semelhante. O que distingue a cepa de cada um é a sua incapacidade para vestir a pele do escravo, para agir e pensar como um.
 Indivíduos criados com sentido de brio, que possuem uma certa distinção inata e um sentido do próprio valor poderão ser obedientes quando as circunstâncias o exigem e até obedecer com graciosidade - não há nada de humilhante em saber estar no seu lugar. Conscientes da dignidade humana, sabem como Sun Tsu que ser humilde com os superiores é uma obrigação, com os colegas uma cortesia e com os subalternos, nobreza. Em casos extremos poderão ter o espírito quebrado, mas nunca caem na baixeza. Sabem estar em toda a parte, porque têm a certeza de quem realmente são e de onde vieram. Mas jamais se rebaixarão à subserviência ignóbil e tão pouco ficarão de joelhos, deslumbrados, ante o primeiro figurão que lhes aparecer. Comportamentos desprezíveis não os atingem nem os contaminam, pois vêem que quem os pratica só pode ter vindo da lama e dela dificilmente sairá, por mais alto que suba. 
  "Nunca sirvas quem serviu, nem peças a quem pediu" lá diz o povo. Quem abriga sentimentos vis de lacaio absorveu-os no berço, deu-lhes muito uso ao longo da vida e não os perde por mais que a fortuna lhe sorria. Gosta de humilhar quem tem o azar de se encontrar às suas ordens e não hesita em humilhar-se a si próprio (engraxando, bajulando e lambendo botas) perante quem lhe possa trazer vantagens. Como dizem os americanos, podemos tirar a rapariga do bairro de lata, mas não podemos tirar o bairro de lata da rapariga. Há quem nasça escravo, goste de o ser e assim continue, sem haver Spartacus que lhe acuda... 

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