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Monday, April 8, 2013

A nobre arte de reduzir os incómodos

Lord Byron
Quem cultiva algum gosto, algum espírito, e ideais de certa elevação, tem por vezes de fazer um exercício exigente: o desprendimento. O olhar para os factos com um pouco de ironia, com ausência de emoção, com uma frieza prática. Por mais que o temperamento de cada um se incline para o artístico (o que tendo panache, pode ser um atraso de vida) o poético (que convida a uma morbidez algo inestética) ou o excessivo (que não deixa de ter a sua graça, mas pode roçar o mau gosto num ápice) é preferível exercer o spleen sem analisar demasiado, sem levar as coisas muito a sério, arranhando só a superfície. 
Muitas coisas que parecem, à primeira vista, um desgosto, uma grande contrariedade, devem ser encaradas como simples maçadas, deslizes, tropeços, incidentes, aborrecimentos, canseiras, disparates ou mesmo erros ridículos. Há que conceder o colorido título de desgosto aos factos ou tragédias que - Deus nos livre delas, batam na madeira, etc - são importantes, no mau sentido. A chatice de cair num erro, por exemplo, pode ser vista sob uma perspectiva estética - foi um erro com certa graça, ou um acto de ingenuidade inconfessável? Valeu a aventura, ou os intervenientes e as circunstâncias ficam mal no retrato? Se ficam, descreva-se o episódio - a quem perguntar, ou a nós mesmos - como a most unpleasant incident. Evite-se mesmo os termos unfortunate, ou esta desgraçada questão, demasiado dramáticos para o que a ocasião exige, e encolham-se os ombros ou ergam-se as sobrancelhas. Se o facto é  socialmente condenável, mas não grave, só resta rir contidamente; fazer dele, eventualmente, uma private jokeAs nódoas são chatas, mas não são uma desgraça, mesmo no mais belo tecido: um giro à lavandaria e nunca mais ninguém se lembra. 

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