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Sunday, November 10, 2013

Poder a sério.

            

Em todos os filmes/livros/séries sobre bruxas, vampiros ou coisa que se pareça há sempre uma personagem poderosa, a tender para o mauzinho (o velho lugar comum "o poder corrompe") e o contraponto: a bruxa boazinha, chamemos-lhe assim, que receia o próprio poder e não põe a render todo o seu potencial. O exemplo mais recente é em American Horror Story, de que já falei aqui
 Fiona, a bruxa Suprema, é uma bruxa em Chanel. Tem o poder todo e usa-o sem complexos; é brutalmente honesta consigo própria e com os outros, não tenta passar pelo que não é (embora não lhe falte o calculismo necessário); sem hipocrisias de espécie alguma, agarra aquilo que quer e porque pode, realiza as ambições inerentes a todo ser humano, bruxo ou não: beleza. Riqueza. Respeito. Não faço ideia da vida amorosa da personagem mas acredito que não lhe faltasse nada. Como já tem tudo, lança-se na busca pela eterna juventude. E pela imortalidade, por amor da santa. 
 Estar sempre em contacto com o seu Eu Absoluto tem, porém, consequências: é fácil perder a noção dos limites. Cair no comportamento de superstar, achar-se invencível. 
             
 A vitória ou derrocada de pessoas/personagens assim, abençoadas com o ímpeto de saber o que querem e agarrarem os seus desejos com ambas as mãos, depende única e exclusivamente do seu sentido de ética, da sua bússola moral e de saberem quando parar. Sem sabedoria, modéstia e misericórdia não há verdadeiro poder.  

É a ambição desmedida e a ausência de escrúpulo que corrompem, não o poder em si. Ou a riqueza, a beleza, o êxito.

 Na outra face da moeda, está o bruxo santinho, ou santo de pau carunchoso, ou algo perdido, que tem medo de si mesmo. E todos somos assim de vez em quando: ignoramos como somos fortes ou poderosos. É mais fácil habituar-se a ceder à tristeza ou à derrota, que são emoções mais acessíveis; ficar triste em vez de ficar furioso. Evitar agarrar o touro pelas hastes; remoer mágoas e engolir sapos. Agir e sentir passivamente. Em situações limite, a adrenalina dispara e aí sim, vai-se buscar todo o poder escondido, toda a força necessária para dar um piparote em tudo, agir sobre o mundo exterior, influenciar os acontecimentos,  traçar as regras e mudar radicalmente a situação. Eu sou pelos bruxos mauzinhos, porque neste mundo há que ser um pouco mauzinho: desde que não lhes falte a bússula. Porque senão perde-se o estilo: fica só a ambição, e não há nada mais patético que um ambicioso sem noção.

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