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Friday, January 10, 2014

Eu embirro com...a canção "Imagine"


John Lennon escreveu uma das minhas canções preferidas - Jealous Guy (embora eu prefira a versão de Bryan Ferry, que sempre me encantou) mas também foi o autor de uma das minhas embirrações de estimação. I imagine, sem trocadilhos,  que dizer isto não me caia lá muito bem, mas já explico (e assim como assim já embirrei aqui com O Principezinho, por isso vale tudo...perdida por cem, perdida por mil!). Como é que se implica com uma canção queridinha, um monstro sagrado de quem todo o mundo gosta, e que ainda por cima fala da paz e do amor entre os homens?

 Primeiro, porque é demasiado idealista. Já vi o suficiente do mundo para ir pela palavra de Maquiavel: devemos encarar a humanidade como ela é e não como gostaríamos que fosse, porque só podemos melhorar aquilo que é real, actuar perante o que existe. Almejar à perfeição como os hippies só funciona para quem está como eles: numa "viagem" permanente. Leva à constante decepção ou a viver à espera de uma revolução que nunca está feita, como vejo tantos exemplares datados e mofentos a fazer por aí. Get real.



 Segundo, porque as utopias me arrepiam: a História provou que é impossível obrigar todas as pessoas a pensar da mesma maneira, a querer o mesmo, a esforçar-se o mesmo, a ter os mesmos ideais. Uns querem ser ascetas, outros são apaixonados, uns são trabalhadores,  para não falar nos "bons" e nos "maus", nos que gostam de alcançar isto e aquilo e nos que se contentam com pouco. Utopias dessas não são (ou não seriam)  menos ditaduras do que aquelas que já por cá passaram.

E terceiro, porque a tomar a cantiga ao pé da letra, o Paraíso de John Lennon não só seria um totalitarismo pegado - onde todos eram obrigados a ser pacíficos, a partilhar tudo e a viver, enfim, como patetas alegres - como me parece uma grandessíssima sensaboria. Ora vejam:

Nada de Religião - é certo que a Religião é a desculpa para muitas coisas menos agradáveis, mas também não é o bode expiatório de todos os males da Humanidade. É fonte de conforto, de força, de esperança. Traz magia e mistério à vida. E ter ou não uma vida espiritual é um direito inalienável de cada um, era só o que faltava. Um mundo onde não posso rezar se me apetecer, onde os míseros humanos dependem de si próprios e onde não há Natal nem Páscoa? Não obrigada.

Nada de propriedades nem de posses: não é que eu seja uma pessoa materialista, pelo contrário. Mas imaginem não terem as vossas próprias casas, as vossas camas, os vossos sapatos, e ter de partilhar uma inexistente privacidade com o vizinho do lado que por acaso, não gosta de tomar banho. Credo.

E ter uma pátria (ou várias) também dá jeito para que haja algum sentido de missão, de identidade.

Nada por que morrer: se não há nada por que se fosse capaz de dar a vida, então não há paixão, não há entusiasmo, tudo fica numa aurea mediocritas insuportável. Há sempre alguma coisa que é vital para cada um. Se nada nos mover, então a vida é um tanto faz danado, um tédio intolerável. Sou toda pelo espírito nonchalant e blasé, mas calma.

 É uma canção do seu tempo, e acho estranho que se veja como um hino universal. Em última análise,se John Lennon não tivesse morrido tragicamente no auge, acredito que  Imagine não teria o mesmo impacto. Não duvido, atenção, de que a intenção fosse boa. É só que o Paraíso de uns pode muito bem ser o Inferno dos outros. Ou como afirma o bom povo, é por coisas destas que o mundo não se tomba.

3 comments:

Pusinko said...

Até há momentos a Imagine era, para mim, uma música fofinha e bem intencionada muito popular em karaokes, pois nunca me tinha dado para explorar o seu significado por este prisma. Como admiradora da obra de Maquiavel e tendo em conta os aspectos que realçaste concordo em quase tudo, mas não pude deixar de rir com o tom bem disposto do post :)

Beijinhos

Olinda Melo said...

Concordo, Imperatriz. Nem tanto ao mar nem tanto à terra, como diz o povo.
Maquiavel era um bocado extremista, contudo ele acerta em algumas coisas.

Bj

Olinda

Cristina Torrão said...

Os regimes comunistas, que proibiam a propridade privada, deram cabo da autoestima das suas populações.

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