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Sunday, March 30, 2014

O amor é um menino cigano, já dizia a Carmen.


L'amour, l'amour, l'amour, l'amour

L'amour est enfant de boheme

Il n'a jamais jamais connu de lois

Si tu ne m'aimes pas je t'aime

Si je t'aime prend garde a toi!

Ou pelo menos essa foi a tradução mais interessante que já li da ária acima. Um "menino cigano" parece-me expressar melhor a natureza do amor, ou de certos amores, do que "filho da boémia" que me soa mais a malandrice e a coisas pouco sérias.

  A letra também me remete para um filme de que falarei um dia destes, em que uma cortesã reformada, ao ensinar à favorita do Rei todos os truques e estratégias de sedução, a advertia que podia explicar-lhe a teoria e as armadilhas da persuasão, porém, "once the wheels of love are set in motion, remember: there are no rules and no order".

 Quem é capaz de muita sensatez, de muita civilidade, muito cálculo, muito sangue frio, não está verdadeiramente enamorado- é possível manter alguma racionalidade, mal seria (nunca engoli a desculpa de quem faz coisas terríveis e/ou magoa terceiros "por amor", ou porque "se apaixonou" do nada, pois o amor precisa sempre de alimento e de troco para aparecer - ora histórias) mas a calma e a paixão raramente caminham juntas.

 E isso é especialmente verdade na vida das mulheres que sofrem daquilo que eu chamo Complexo Carmen

Para quem não se lembra, a Carmen era uma cigana lindíssima e independente que tirava os homens do sério. 

 Despertava paixões desabridas e o ciúme que vem com isso. E assim é na vida real: 
 uma Mulher Carmen pode ser uma sedutora, uma femme fatale que parte corações em série, mas também pode ser do mais  discreto e bem intencionado que há - num caso ou noutro, a condição de Mulher Carmen implica sempre ser AQUELA MULHER, com o que isso tem de bom (ou romântico) e de mau.

Este tipo de mulher distingue-se pela sua pontaria rara para atrair apaixonados que não lhe resistem, que ficam caidinhos à primeira vista porque sim, que querem e querem e querem ficar com ela como se a sua vida dependesse disso...mas que depois, porque a acha tão irresistível, se convencem de que o resto do mundo acha o mesmo; e de que, sendo a Carmen da sua vida uma mulher de personalidade tão forte, tão segura de si, os pode deixar a qualquer momento pelo primeiro cavaleiro andante que apareça. 

Tal como o D. José são incapazes de confiar, por muitas provas de amor que recebam, ou por mais que, noutras áreas, sejam cavalheiros assertivos e habituados a comandar. Têm sempre medo de que surja algum Escamillo que estrague tudo; e querem por força submeter a Carmen, dominá-la, transformá-la na dócil e apagada Micaela...esquecendo que se a Carmen fosse como a Micaela, não lhe teriam achado graça nenhuma. E do fogo da paixão ao fogo dos infernos é um fósforo.

 Quando finalmente a Carmen se cansa de tanto teatro, e com Escamillo ou sem Escamillo toma a (por vezes dolorosa) decisão de voltar a ser dona do seu destino, é vê-los a inverter culpas; e caso haja Escamillo...não faltam desafios, duelos mais ou menos figurados e muita, muita ópera bufa. E isto sucede sem que se faça de propósito, talvez porque é preciso haver uma Carmen predisposta a apaixonar-se por um Don José, a achar muito românticos os seus exageros, a deixar-se levar pelas brigas, e as reconciliações e os brios feridos, a confundir amor com o hábito de fazerem a cabeça em água um ao outro. A culpa nunca morre solteira.








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