Recomenda-se:

Netscope

Sunday, April 6, 2014

A Classe e o Ser Selectivo resumidos em poucas palavras.

CZ Guest, Vogue de Abril 1959


A propósito do faux pas que foi a capa da Vogue Americana de Abril (prova provada de que chegámos mesmo ao fim dos tempos e que podemos começar a construir bunkers para evitar a contaminação de mau gosto generalizada) e perante as justificações da revista, que classificou a decisão como um "sinal dos tempos", uma leitora espanhola, com a franqueza e raça de que só as espanholas são capazes, pôs tudo no seu lugar com uma simples frase:

"Excusas. No acertaron con la portada y lo saben. Esa pareja no es de Vogue y si Vogue se siente identificada con ellos, seré yo la que no es de Vogue".

E assim é, ou devia ser, com tudo na vida: não pode haver desculpas para o mau gosto ou para comportamentos menos abonatórios. Se uma publicação que foi por décadas o epíteto da sofisticação e da exclusividade concede fazer-se representar por um rapper arrogante e malcriado e uma reality star que escalou socialmente (salvo seja) à custa de um vídeo para maiores de 18, não vale a pena lamentar o facto: quem está contra, enquanto consumidor traça uma linha e demarca-se. Se a Vogue se identifica com isto, somos nós que já não nos identificamos com a Vogue (com a Vogue americana, pelo menos). Paciência. 

 Em casos assim, vale o velho ditado "os incomodados mudam-se". Ou lembrar a moral do charuto.

 E no quotidiano, nos relacionamentos, nas amizades, nos negócios, passa-se exactamente o mesmo: se alguém, pessoa ou organização, é conivente com atitudes menos elevadas que nos constrangem, se tem atitudes pouco éticas, se se apresenta em figuras (ou com pessoas que fazem figuras) que enchem qualquer alma sensata de vergonha alheia, se não distingue, se tanto lhe faz, se se diverte com isso ou ganha alguma coisa com isso, se, como diz o povo, não se importa de ir de cavalo para burro, então resta concluir que essa pessoa/empresa/clube não tem, deixou de ter ou (o que é mais provável) nunca teve a classe que aparentava, fazer o luto social ou outro da coisa e adeuzinho.

 Porque há coisas que são intoleráveis para quem tem gosto. Intoleráveis e impensáveis. Quem tem a elasticidade moral ou estética de se aproximar delas não pode ser posto num pedestal. Ainda que seja algo tão bonito como uma Vogue. Não podemos controlar as condescendências e liberdades alheias, mas temos o dever de controlar as nossas para que uma maçã podre não contamine o cesto: se te identificas com isso, sou eu que não me identifico contigo.

Dizia Baudelaire que a vantagem do mau gosto é a possibilidade de troçar dele: mas também serve lindamente como sinal de Sentido Proibido, para que se tome o caminho exactamente oposto.



 


1 comment:

Amazon said...

Falou-se demasiado dessa capa, o que só contribui para difundir ainda mais a imagem. A meu ver, só há uma atitude sensata: quem não concorda com a escolha da Vogue ( e não estou aqui a expressar a minha opinião, que neste contexto não interessa)simplesmante não compra a revista. Não pode haver declaração mais clara (passe a redundãncia...)

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...