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Tuesday, April 8, 2014

Duas palavras com que eu embirro solenemente.


Há muitas outras que me arrepiam como unhas a riscar um quadro - assim de repente ocorrem-me algumas que já tenho apontado por aqui, como "o comer", "o (a) menino (a)" - não dito na segunda pessoa mas na terceira, estilo "cuidado com o meniiiiiiiino!" ou "vai dar o comer à menina", ou menos grave, mas embirração minha, "mala" em vez de carteira"; depois há outras que não têm nada de transcendente mas que se tornaram ridículas pelo uso atamancado que se lhes dá, como "fashion" e "glamour".

 E isto sem falar nas mulheres que tratam as amigas "carinhosamente", e em público,  por nomes de animais de quinta - quem diz tal nem merece ter nascido e já que nasceu, havia de estar trancafiada a lavar pratos numa daquelas cozinhas refundidas de casas antigas estilo Downton Abbey, onde ninguém as ouvia (mas longe da comida, que elas chamam "comer", para não contaminar ninguém) e com os braços enfiados até aos cotovelos em sabão e potassa, a ver se aprendia. 

 Enfim, se vou elaborar um glossário daquilo que não gosto que se diga na minha presença temos um longo serão pela frente, mas atiro aqui duas que me fazem quebras de tensão.


Desgustação - não tem nada de especial, até gosto de ir a uma degustação por outra, mas por modismo e pretensiosismo aburguesado do piorio, agora chama-se degustação a tudo, mesmo à mais elementar e sadia comezaina. É que soa mais chic, julgam os patos bravos que agora descobriram as maravilhas do gourmet (outra palavra que ficou na moda). Por mim até prefiro o sinónimo prova, mas diz que a degustação é assim mais introspectiva e iniciática, estão a ver a ideia. Em todo o caso, na minha terra degusta-se um vinho, uma selecção de doces ou as amostras para o banquete de um casório.
 "Degustar um leitão assado" e coisas semelhantes, como já ouvi, é no mínimo estranho. 

Gostoso - ou gostosão, gostosona, e por aí fora. Primeiro, porque é abrasileirado, segundo porque, como é óbvio, me lembra os anúncios de acompanhantes, que falam sempre em "pecado", "pecado delicioso", ou pior, pior, "pecado gostoso". É uma palavra feia que dói, como elogio é perfeitamente nojento, e como se não bastasse ganhou uma conotação pior ainda graças a estas profissionais da...bom, desavergonhice que gente que não é profissional acha por bem copiar. Por causa de tudo isso, nem sequer consigo empregar o antiquado " aceito gostosamente", por boa educação, de tal maneira me lembra o palavrão. Fico-me pelo "muito gosto" e já é muita cedência.

7 comments:

Bárbara Godinho said...

Concordo plenamente contigo! Ou então a palavra "vai fazer a comida". Eu só respondo, se é comida já está ingerida. Se for fazer é o "por comer" - só naquela de mostrar o quão ridículas as pessoas são quando não pensam. Dizem "sai e pronto". Mas não pode sair, as pessoas deviam pensar naquilo que dizem. Nas expressões que usam.
Certa vez fui a um casamento de uma filha de um juiz com um alto cargo. Estava lá um parente da noiva com os filhos. Ele tratava os filhos por "menino" ou por "você". O pai começou a dar gritinhos "Oh António você não faça isso". O filho, índio de primeira , virou-se para trás e só disse "cala-te ó filho da ****". O Pai muito encavacado virou-se para nós - "Ah, desculpem, ele é criança não sabe o que diz. Não sabe o significado das palavras."
Este tipo de coisas dá-me cá uma azia ... enfim ...

beijinhos e muita paciência é o que te desejo :P

Na Província said...

lolo lol Que engraçado, nunca tinha pensado nisso. Por cá ouço muitas vezes " anda comer" em vez de " anda almoçar, ou jantar" .

Imperatriz Sissi said...

Bárbara, essa estória é deliciosa. Conheço não poucos wannabes quetratam os filhos por "você" em público, e em casa é palavrão, e tapona, e venha lá seu compadre. Só que as crianças não são de fingimentos.

Mas verdade seja dita, eu só uso "o menino" no contexto que esse pai usou - em vez do "você" quando me dirijo a alguém da minha intimidade ou por delicadeza, por exemplo " onde é que o menino vai tão janota?" ou " por favor, menina, pode indicar-me onde está isto ou aquilo?".

O que me incomoda são as pessoas que se referem às crianças na terceira pessoa por "o menino". Tipo " vai dar o comer ao menino". Mas entre o fingimento e o genuíno, venha o diabo e escolha...beijinho.

Imperatriz Sissi said...

Dizer "anda comer" não tem nada de mal. Usar "comer" como substantivo e não como verbo é que é o fim...

Bárbara Godinho said...

Claro, com certeza! Nesse contexto também uso/usamos cá em casa. E creio que faz todo o sentido que assim seja!

Sim, os Pais esquecem-se que os miúdos não se regulam pelas regras da nossa sociedade e aquilo que é dito e vivido dentro das quatro paredes também é vivido fora delas!

Penso que os pais precisavam de ler uns tantos ou quantos livros sobre educação para se educarem e depois educarem.

beijinho

Diogo Carvalho said...

Leio e gosto das suas notas. Mas, desta vez, não concordo com a anotação. Uma coisa é não gostar outra é não estar correto. A utilização de comer como nome está correta. A língua permite "nominalização verbal", é o termo cientifico. Há muitos outros casos de alteração da classe das palavras. Também não gosto deste "comer", não utlizo, utiliza-se, talvez, num estrato social menos escolarizado e é um regionalismo forte do norte e principalmente do Porto, corretíssimo. Dizem os linguístas que não se devem perder estas pérolas, e a verdade é que soa estranho porque desvia da norma padrão.

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/o-comer/814

Imperatriz Sissi said...

Olá Diogo, e obrigada pelo seu comentário simpático. Eu sei que dizer "o comer" não está incorrecto (digo-o noutros posts, aqui não quis repetir-me). Tal como dizer "deve de ser" não é incorrecto, que até Camões empregava...
Mas que quer...acho desagradável de ouvir, embora por norma não me rale de usar expressões antigas e rurais. O "comer" não suporto mesmo!

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