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Monday, April 7, 2014

É oficial: beleza é crime ("olhá magra, olhá top model")


Como tenho barafustado bastante contra este assunto não queria ir por aí, mas a tonteria generalizada não me deixa escolha: a obsessão pela mentalidade de palmadinhas nas costas, contra a "opressão da ditadura da beleza" e outros argumentos lamechas que acusam a indústria da moda e os média de um constante fat shaming sobre as mulheres (argumentos esses que levam ao contrário, ao skinny shaming) está a atingir níveis de paranóia.
 Uns (e não são só uns) querem proibir o Photoshop nos anúncios e nas revistas. 

 Outros entretêm-se a louvar mulheres com problemas de pele que tiveram a "coragem" (coragem porquê?) de mostrar ao mundo como são sem maquilhagem num anúncio de uma companhia de cosméticos.

 Não sei em que é que isso contribui para a felicidade ou auto estima de alguém, sinceramente: segundo a marca, conhecida pela sua maquilhagem de elevada cobertura que disfarça até as imperfeições mais severas, o propósito das "confissões" (que raio de nome - agora ter problemas de pele é crime, querem ver) no anúncio é "provar que todos temos imperfeições e que não é preciso sentir-se menos confiante". Ora, meus senhores, eu que nunca gostei de coisinhas a puxar à lágrima e até sou da área, digo-vos sem pejo: tretas. O que o anúncio faz - e muito bem - é mostrar que a maquilhagem em causa é realmente eficaz (se cobre vitiligo e acne severa, resolve tudo o resto) e ainda comove, fazendo eco nas mulheres inseguras que precisam de pescar elogios. E vai tudo em romaria comprar Dermablend, que é uma marca fofinha e amiguinha das inseguranças de cada uma. É buzz garantido nas redes sociais, polémica barata.

Que necessidade é que há de ver as fraquezas alheias? Em fazer de heroína mostrando fragilidades em público? Como se não se soubesse que toda a gente, mesmo as maiores beldades, tem defeitos e imperfeições, e que alguns até dão mais graça.
 Não há assunto mais cansativozinho, mais chato, mais cheio de caridadezinha. A obsessão pela realidade, por este voyeurismo da falha, pela ditadura do feio ou do normal, não acrescenta nada a não ser - falo por mim - irritação e revirar de olhos. Isto é suposto fazer alguém sentir-se melhor? Ou antes, fazer quem é convencionalmente bonito sentir-se mal? Não compreendo este ataque constante e passivo agressivo à indústria da beleza, ou ao status quo da beleza, esta mudança forçada de paradigma.

 Pois bem: aqui vos digo que estou farta, enojada já, de marcas fofinhas. Se querem iludir as mulheres - ou o público, de resto - com alguma coisa, deixem as pessoas sonhar. A realidade já é feia que chegue, já se vê tanta coisa feia por aí, pessoas que não devem nada à beleza é o que mais se vê todos os dias - se nos tiram a beleza nos écrãs e nas publicações, estou fora.  

 Mal ou bem, o Photoshop é mais honesto. Retoques sempre existiram, ainda o photoshop não estava inventado nem sonhado. Talvez se exagerasse nos últimos tempos (e os exageros são sempre ridículos) mas ninguém é tão estúpido que não saiba que muito do que vemos nas passerelles, na televisão, na imprensa, é smoke and mirrors

 As ilusões (luzes, ângulos especiais, maquilhagem) fazem parte, até porque as câmaras, e na era do digital pior ainda, são coisas tramadas que acrescentam sombras e centímetros onde eles não existem: para o fotógrafo transmitir exactamente o que está  a ver, ou aquilo que imaginou, pode ser necessário ajustar uma coisa ou outra. 
E se até há uns anos as pessoas não sabiam disto, nesta altura já estão carecas de saber que o photoshop existe, que as modelos não são bem assim na realidade, rebebebeu pardais ao cesto. Está tudo informado, agora basta.

E de resto, se tudo for real, onde está o sonho? O romantismo? Se tudo tem de ser real, comece-se o movimento "ir para o trabalho tal como se saiu da cama" e já ninguém fica melindrado.

 Este hábito que se instalou de apontar o dedo a modelos e outras representantes dos detestados "padrões impossíveis" lembra-me aquele spot do Compal (ou Santal?) Light em que a consumidora do mesmo era vaiada por uma data de gordinhos  ("olhá magra, olhá top model", remember?) que não queriam sumos light "porque com menos calorias não conseguiam engordar". E cheira-me a uma falta de desportivismo desgraçada, do estilo " lá porque eu não sou linda, ninguém pode". Ou a inveja, ou falta de imaginação, sabe-se lá. 

 Haverá sempre pessoas mais bonitas - ou com uma beleza diferente - do que toda a gente. Que se promova a diversidade, muito bem: a beleza vem em diferentes formas, cores, tamanhos, em  muitas embalagens. Mas o feio nunca será o novo bonito. E o normal nunca vai inspirar ninguém, só nivelar por baixo. Em última análise, nem tudo tem de estar exposto, muito menos aquilo que é melhor esconder.

Em vez da ditadura do normal, calhava bem a ditadura do decoro e da discrição. Porque defeitos cada um tem os seus, e ninguém tem nada com isso. 


1 comment:

Docinhos e Companhia said...

Parabéns pelo excelente texto!
Boa estratégia essa da dermablend de mostrar as imperfeições das pessoas e depois apresentar a solução.. Marketing, puro e duro, numa era de pseuso-sensibilidade em que as pessoas se preocupam com a sua própria imagem de sensíveis do que realmente com os problemas alheios.
Não ando maquilhada todos os dias mesmo tendo muitas manchas de acne, mas quando sei que vou ter de contactar com o publico tenho o cuidado de me apresentar no melhor, ninguém precisa de conviver com o MEU problema.
No entanto, em dias em que simplesmente olho para o espelho e decido sair maquilhada ouço muito "onde é que vai toda bonitona? há motivo para festejar?", mas para isso já tenho resposta "Sim, a Vida, devemos festejar a vida".. Em dias maus em que simplesmente não dá para passar maquilhagem também ouço coisas do tipo "mas nunca mais curas isso?"

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