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Thursday, April 3, 2014

Ninguém se mete com as redes sociais.



Facto º 1: a Sra. D. Isabel Jonet não terá o dom de falar às massas, mas faz mais pelos necessitados  (e a condição de "necessitado" é, coisa que nos deve envergonhar a todos, cada vez mais abrangente neste país) do que os seus detractores, do que os jornalistas que exploram de forma sensacionalista os seus ditos, do que muita gente que é regiamente paga para que não haja tantos "necessitados" e desempregados, do que aqueles que a insultam levianamente atrás de um ecrã, do que eu e, atrevo-me a adivinhar, do que a maior parte das pessoas que me leia neste momento.

O seu trabalho à frente de uma instituição (instituição essa que é  uma obrigação moral ajudar, porque ninguém merece ter fome) é tão meritório como um mal necessário.

Facto nº2 - Não interessa para o caso se o argumento das redes sociais, tal como a recomendação acerca dos bifes, é correcto ou uma tolice. Isto porque a reacção incendiária que se seguiu não tem tanto a ver com um comentário isolado (que se não é exacto ou brilhante, é pelo menos perfeitamente casual) mas com algo mais profundo e um bocadinho mais complicado. O nosso povo tem as suas virtudes, mas também sofre de defeitos muito feios exacerbados pela crise -a  inveja, o ressabiamento, o snobismo invertido, o complexozinho de inferioridade, o temor reverencial pela frente e o ódio  velado ao "rico"  pelas costas. 

Neste país, os "ricos"  não podem abrir piu. Certo tipo de "ricos", bem entendido. 

Estivesse um self made men/woman bem HUMILDE, vindo do nada, imaginemos Toni Carreira ou a mãe do Cristiano Ronaldo, à frente da instituição, poderia recomendar à vontade que se comesse sardinha com papas (nada contra a sardinha com papas, atenção) sem que isso desse escândalo.
    Porque afinal, o Toni ou a D. Dolores já comeram muita sardinha com papas  na vida (ou deduz-se que sim); o Toni até ia para a escola com uma saca malcheirosa do peixe a fazer de mochila (palavras dele, não minhas). Não só sabem tudo acerca do assunto como, por muitos novos riquismos que mostrem, por muito que, citando o género,  "esfreguem na cara dos pobres" os seus Ferraris, as suas camisas italianas, os seus casarões, estão santificados. Mereceram-no porque já foram pobrezinhos. 

Para ser rico sem ser crucificado em Portugal é preciso ter subido a pulso, mas isso não basta (veja-se o tio Belmiro); é preciso que além de ser trabalhador se tenha "subido na vida" a partir do zero, que se tenha nascido nas palhinhas, saído da lama,  que se tenha comido o pão que o Diabo amassou e nada de bifes. Se além disso tudo se for Republicano e de Esquerda, maravilha: temos um herói popular. Sem isso, nada feito.

Os que não são de Esquerda, nem Republicanos, nem mal nascidos ou malcriados;  os herdeiros, os que nasceram em berço de ouro", ou vá, os que tiveram "berço" (porque ter berço não implica  necessariamente ter dinheiro antes pelo contrário, mas é um estigma desgraçado) e só emigraram quando o pai, que era diplomata, foi destacado para Bogotá ou a mãe que fazia parte dos Médicos sem Fronteiras foi para a Serra Leoa travar epidemias, não têm a mínima hipótese por muito boas pessoas ou trabalhadores que sejam. Isto a não ser que decidam dar tudo o que têm para caridade...e mesmo assim ainda são capazes de ouvir "não faz mais que a sua obrigação de devolver o que roubou".

 O público luso tolera mal  as ladies who lunch ou vá, as "tias" (termo detestável quando usado com maldade, como tem sido) que se dedicam a obras de solidariedade. Ou antes, sente pouca simpatia por senhoras de boa sociedade que tenham o descaramento de aparecer ou dizer alguma coisa, por muito que se estafem a trabalhar para fugir ao rótulo de inútil e de fútil que teimam em lhes pôr. E Isabel Jonet, mais rica ou menos rica, mais tia ou menos tia que ninguém tem nada com isso, aparece aos olhos da plateia como uma lady who lunches

 Facto nº3 O Banco Alimentar é uma instituição que para ter êxito nas suas obras depende da boa vontade do público, logo, do impacto positivo da sua imagem. E é aqui que temos um problema: qualquer marca (e é disso que se trata, nem mais nem menos) deve falar ao seu público-alvo, que neste caso não é exactamente segmentado.  Eu compreendo, palavra que sim, o tipo de discurso da presidente do Banco Alimentar. Conheço muita gente assim, eu própria digo, em certos contextos e círculos, o que me passa pela cabeça.
 Não é por mal - da pilhéria elegante ao desabafo da boca para fora, diz-se muita coisa que não é para tomar a peito. Se não estou em erro, foi Baudelaire que afirmou "viajar num comboio com crianças carece da presença de um estrangulador" e toda a gente se riu da extravagância, e não veio daí mal ao mundo.
 Mas não será muito sensato quem está à frente de uma organização destas, sendo quem é, falar à vontade, como fala com as amigas na pastelaria do costume, a jornalistas esfomeados (passe o trocadilho) ávidos de uma frasezinha que soe insensível ou paternalista para explorar até à exaustão de forma pouco ética. É muita ingenuidade, porque ânsia de protagonismo não posso acreditar que seja.

Facto nº4, e com isto me fico: se o Banco Alimentar precisa de voluntários, encontre-se alguém competente para as Relações Públicas. Nem sempre as boas pessoas se expressam da maneira certa. E não convém que os donativos diminuam por ditos mal recebidos, que soem insensíveis a quem já anda nervoso. Ou que uma Senhora seja coberta de alcatrão e penas só porque falou como sabe, obrigando-nos a assistir circos destes, que só prejudicam quem não tem pão nem circo.



3 comments:

Sandy said...

tem as suas virtudes, mas também sofre de defeitos muito feios exacerbados pela crise -a inveja, o ressabiamento, o snobismo invertido, o complexozinho de inferioridade, o temor reverencial pela frente e o ódio velado ao "rico" pelas costas.
Fantástico*

Tamborim Zim said...

Desculpa Sissi, mas esta "senhora" deve ser o maior óbice à boa imagem do Banco Alimentar, p o qual continuo e continuarei a contribuir. Expressa-se pior do que mal: fá-lo desrealizada e tolamente, sem elegância, sem sentido solidário, sem aquele pruridozinho que deve ser sempre um sinal de alerta para almas sensíveis. Talvez esta pessoa seja sensível afinal, mas é a velha história do ser/parecer.

Tamborim Zim said...

Desculpa-me Sissi mas a esta "senhora" acho-a descabida e muito pouco inteligente na gestão da imagem do BA, p o qual continuo a contribuir. Expressa-se pior do que mal: fá-lo com a burrice, o desrealizamento e a ausência de prurido que qqer alma sensível n pode deixar de ouvir antes de emitir fraseados mastodônticos. Pode ser que a Isabel Jonet seja, afinal, sensível, mas é a velha história do ser/parecer. Sem qqer ódio aos ricos legítimos, tomara eu sê-lo, gostaria apenas de ser poupada à ausência de elegância desta sistemática protagonista do disparate.

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