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Thursday, April 3, 2014

O Amante de Duras - ou dos amores-cicatriz.


“Et puis il le lui avait dit. 
Il lui avait dit que c’était comme avant, qu’il l’aimait encore, qu’il ne pourrait jamais cesser de l’aimer, qu’il l’aimerait jusqu’à sa mort.”

                                                    Marguerite Duras, O Amante


Reparei recentemente num facto curioso: entre os meus autores preferidos, há mais homens que pintam bem as mulheres (assim de repente, a escrita sensual de Jorge Amado é a primeira que me ocorre) do que propriamente  escritoras. Por nenhuma razão em especial, já que tendo a escolher os romances pelo tema e só depois me apaixono. Calhou.

  A explicação talvez se relacione com a minha predilecção por autores bem mortos, do tempo em que as mulheres não tinham tanta liberdade para escrever e quando escreviam, muitas vezes era a esforçar-se demasiado para ser levadas a sério ou a protestar porque não as deixavam trabalhar à vontade.

 Claro que há os monstros sagrados - Emily Brontë, Jane Austen- e autoras como Isabel Allende ou Laura Esquivel, com a sua escrita rumorejante a apelar aos sentidos (isto não será uma questão de género, acho eu; é algo que se desenvolve lá pelo Hemisfério Sul) mais as poetisas (nunca me habituarei a dizer "poeta"; as minhas professoras primárias eram mais de preciosismos que de feminismos, e lá em casa também) e as autoras de contos ou dos livros que me marcaram a infância, como Edith Hamilton ("A Mitologia" mudou-me para sempre) ou Frances Burnett, entre tantas outras. Tive a minha fase de fascínio por Anaïs Nin -  mais pela personagem glamourosa de biografia estonteante do que pela obra em si, sou sincera.

 E depois houve Marguerite Duras, muito responsável por eu me ter encantado pela Língua Francesa no secundário.  Duras que escreveu O Amante e O Amante da China do Norte, obras que ainda hoje não consigo ler sem largar numa choradeira inconsolável, eu que não choro assim com duas coisas. 
 Tal como na Lolita, de Nabokov, em O Amante fala-se de uma paixão que é mais que amor. De um amor sufocante, que fere, marca a ferros e permanece inalterado, cristalizado apesar do tempo, da distância, da ruptura. Mesmo quando a vida avança, a memória remete para aquele período em que duas pessoas foram o mundo uma da outra, e a ferida não sara. 


Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, 

que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.

Há uma janela sempre aberta para a mesma obsessão. Amores destes podem não matar mas também não morrem, não suavizam sequer;  aí reside a sua imortalidade, na dor viva, na voluptuosidade do parece-que-foi-ontem, na capacidade de não esmorecer quando já devia, pela lógica das coisas, o tempo ter feito cinza da brasa, para citar Sérgio Godinho (outro poeta de calças, note-se). 

 Quando muito nova me apaixonei pela obra de Marguerite Duras achei que isto era simultaneamente belo, triste e assustador. Assustador porque não se parecia com as obras clássicas - ninguém morreu (e quando se morre, mal ou bem acaba o sofrimento e fica a história fechada)  ninguém se tornou uma alma penada para assombrar o outro (o que seria, de alguma forma, estar juntos) não houve final feliz. Só uma grande, imensa, inultrapassável e eterna separação. 

 Isto era pavorosamente real. Isto podia acontecer a qualquer uma: tanto amor desperdiçado. Mais do que tanto amor desperdiçado, aquele amor do qual nunca se recupera. 
 E fiquei com medo, muito medo, de me acontecer uma destas, e chegar à terceira idade depois de guerras, revoluções, uma vida inteira, e continuar a  escrever e a chorar sobre o assunto.

 Amanhã Marguerite Duras faria 100 anos. Perdoo-lhe de todo o coração o traumazinho que me causou. Como dizia a outra, "que graça têm as histórias em que o protagonista não sofre?".






4 comments:

Susana Correia Dos Santos said...

É uma das minhas escritoras favoritas. Consegue sempre transportar-me para um mundo muito exótico com as suas palavras

Sandy said...

NUNCA LI

Boboquinha said...

É o segundo post que leio sobre esta autora. Até outro dia não a conhecia. Tinha o livro o amante da china do norte mas não me dava para ler. Aí uma pessoa mo pediu e eu antes de dar o livro decidi folheá-lo.

Com base nesta e apenas esta obra não encontro esse fascínio pela autora. Mas me satisfez perceber as diferenças culturais de povos tão distintos como o nosso e o dela. Diferenças na maneira de encarar o sexo, por exemplo. Diferença no racismo, mais institucionalizado e ao mesmo tempo não. Aquela coisa dela amar o irmão de forma carnal e isso ser considerado natural, todos entenderem, e o mau da fita ser o irmão mais velho viciado em ópio. Ela se entregar ao amante, ela a chamar o amigo de infância para terem sexo e ela a dizer à amiga da escola que gostava de ter sexo com ela ou de oferecer a sua virgindade ao seu amante. É uma forma muito libertina e livre de encarar o sexo. E no meio disto, existe preconceito de cor, de raça, de origem, o que é curioso entre pessoas que se autodenominam mestiças. Choram e riem por tudo e por nada, a todo o instante. Tudo numa escrita propositadamente infantil.

Imperatriz Sissi said...

@Boboquinha, concordo em absoluto. Aquilo era gente no mínimo muito esquisita. A nível da moral e das emoções há ali quase um realismo mágico, nada bate certo. Isso nota-se mais no Amante da China do Norte do que n´O Amante. Tanto que só li esses dois dela, pelo resto só passei os olhos. Mas o cenário, a descrição das paisagens, do ambiente, das comidas é qualquer coisa e em termos de história de amor "estranha" só encontro paralelo em Lolita mesmo. É um fascínio inexplicável por este romance que em tudo o resto, seria uma receita certa para me desagradar...

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