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Wednesday, April 2, 2014

O modo "pior do que está não fica"


Eu cá não gosto de surpresas. Sou daquelas pessoas que têm um espírito aventureiro latente, que se desembaraçam lindamente no meio de nenhures em caso de necessidade, mas só se não puderem evitar. 
 Prefiro a estabilidade, como boa nativa de Terra com uma quantidade apreciável de Fogo à mistura. Gosto de planear, de saber com o que conto - ou pelo menos, de assegurar os mínimos para que o resto se desenrole sem percalços. Se viajo posso não programar o itinerário ao milímetro, mas tenho de ter uma lista dos locais a visitar para cumprir, certos confortos, os hotéis marcados, tudo arranjadinho e a bagagem bem composta. Mochila às costas não é para mim - mas se precisar de sobreviver na selva, não fico paralisada de medo.

 Com outras situações na vida, nos negócios e com as pessoas passa-se o mesmo: gosto de saber com o que conto, tudo explicado e delineado preto no  branco. Não é que seja difícil de lidar ou intransigente, mas é muito mais fácil ter um plano, saber o que se espera para poupar desgostos, mal entendidos e condutas irresponsáveis. 

  Num cenário ideal, os acordos seriam cumpridos à risca e os afectos estabelecidos durariam para sempre a partir do momento em que essa vontade é manifestada. Já se sabe que há imprevistos, erro humano, falhas, fragilidades de que ninguém está livre - mas eu tendo a confiar nas promessas, porque nunca prometo em vão - e a trabalhar para as manter. Porque qualquer promessa (promessa de coração e com a cabeça no lugar, entenda-se) dá trabalho. É por isso que "compromisso" é um palavrão tão grande. De boas intenções está o inferno cheio.

 Quando eu era pequena, contava-se a lenda do fantasma da costureira: uma senhora que estando doente, prometeu a um certo Santo oferecer a máquina de costura se se curasse. Com a aflição foi sincera, mas assim que se apanhou boa foi adiando, porque era complicado desfazer-se do seu ganha-pão (algo que se não é de louvar, é compreensível). Numa altura não dava jeito, noutra também não, até que morreu sem pagar a promessa, e por causa disso tornou-se uma alma penada. Quando se falava na "costureira" à noite ouvia-se claramente o barulho da máquina a dar ao pedal e o pousar da tesoura - o que muito nos arrepiava, a mim e aos meus primos. Moral da história? Não se fazem promessas vazias.

 E quando os votos não são honrados, quando as coisas azedam por culpa alheia...então o meu espírito aventureiro, o meu seja-o-que-Deus-quiser, a eles como Santiago aos mouros, remember the Alamo, Jeronimo, Banzai, aqui vai disto entra em acção. Se for preciso deita-se fogo ao telhado, burn mother qualquer coisa, burn. Queimam-se as pontes e fé em Deus. 

É assim uma decisão "pior do que está não fica", sendo que às vezes fica mesmo, mas paciência. 

Morrer na forma, tolerar o intolerável com medo de ficar pior, recear a mudança que pode ser construtiva para evitar saltar do fogo para a frigideira, não dá. E isto sou eu, que não gosto de surpresas nem de mudanças - se puder evitá-las, lá está. A evolução, esse mal necessário.

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