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Friday, October 31, 2014

A Princesa Bailarina (porque máscaras, todos temos)


Nesta data em que a velha tradição celta de usar máscaras para se confundir com as almas de outro mundo que andam por aí à solta faz um regresso cada vez mais visível aos países europeus, é curioso pensar nas máscaras que a vida nos obriga a usar.

 Mesmo as pessoas mais honestas e sinceras usam uma, ou mais, no seu dia a dia. Nem sempre se pode dizer o que se pensa, mostrar o que se sente ou usar todo o  potencial de que se é dotado (a). 

  Há também muita gente a quem a vida, por força das circunstâncias, rouba a verdadeira identidade, obrigando à construção de uma personagem totalmente nova. Foi o caso da Princesa Curda Leila Bederkhan, que nos anos 1930 se tornou uma estrela da Dança: a História tem bastantes casos de mulheres do palco que casaram com grandes Senhores, tornando-se titulares ou mesmo princesas; com Leila deu-se o inverso. Princesa de sangue, fez-se bailarina e deslumbrou as audiências, reinando nos grandes palcos mundiais.




Nascida com a sua Pátria, o Curdistão, já dividida entre vários países diferentes, Leila vivia como uma refém privilegiada em Istambul: o seu trisavô, soberano dos Curdos, fora nomeado  Camarista Real pelo Sultão, mas no coração dos descendentes nunca deixou de vibrar o desejo pela reconquista do trono. O pai de Leila, o Príncipe Abdurezzak, Emir do Curdistão, recusou casar com uma linda fidalga turca, unindo-se a uma mulher curda da sua estirpe; e apesar de receber as atenções e amizade do Sultão Abdul Hamid, seu soberano,  à porta fechada conspirava para reaver a independência ancestral. Foi descoberto, porém - e executado no próprio palácio. Leila e a mãe lograram fugir levando algumas jóias de família e com a ajuda de amigos, foram postas a salvo em Paris.


  Na capital francesa, a princesa exilada recebeu a educação mais esmerada que os meios algo modestos lhe permitiam: falava francês e italiano fluentemente e quem a via não reconhecia nela uma princesa oriental; parecia uma parisiense perfeita, de ar distinto e cosmopolita. A sua ambição era formar-se em Medicina - e assim teria sido se, num espectáculo organizado pelos colegas onde Leila mostrou os bailados das suas antepassadas, não estivesse um grande nome da Ópera de Paris, Aida Boina. A artista ficou de tal maneira deslumbrada com o talento da princesa que a convenceu a tentar antes a vida no palco, prometendo encaminhá-la rumo ao  estrelato. 


 E cumpriu: após frequentar o Conservatório, Leila Bederkhan, Princesa do Curdistão, estreou-se na Ópera com retumbante sucesso. Seguiram-se os grandes palcos mundiais - Milão, Nova Iorque - e a todos conquistou com as encantadoras danças da sua terra, executadas com  transporte e génio. No palco, transfigurava-se. O êxito, no entanto, não lhe chegava sem amargos de boca: havia quem não gostasse de a ver executar danças religiosas em palcos profanos. De Istambul, do Cairo, de outras paragens ainda, chegavam-lhe ameaças de morte. Leila ignorava-as: já tinha visto a morte à frente dos olhos; nada a assustava a não ser o fracasso.

 Nunca olhou para o passado: se nos momentos menos bons lamentava o esplendor perdido da família, por outro lado sentia-se afortunada por viver como uma jovem independente, longe da submissão imposta às mulheres da sua condição. Senhora do seu destino, disse várias vezes só lhe interessar a Coroa da Arte.
 Não deixava, porém, de ser uma verdadeira Princesa: as máscaras e as circunstâncias não podem mudar o que vem de berço, nem a qualidade da alma de cada um...









2 comments:

Margarida said...

Este post fez-me lembrar a grande música das Bangles: https://www.youtube.com/watch?v=BWP-AsG5DRk

Imperatriz Sissi said...

Se a vida os manda dançar...dance-se :D

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