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Tuesday, October 28, 2014

Sangue frio, mas calma: a nobre arte de reconhecer que se está zangado (a)



Pessoas de classe são blasé, nonchalant, imperturbáveis; não se deixam impressionar nem intimidar por nada e vivem em permanente modo frankly my dear, I don´t give a damn

Mostram-se entediadas, mas tristes, nunca. Pessoas fortes nunca cedem nem confessam estar a passar um mau bocado: a sua persona jamais se desmancha. Pessoas orgulhosas não demonstram às outras - ou pelo menos, à maioria- que elas conseguiram a proeza de as aborrecer, a não ser que se trate de trabalho ou de negócios e mesmo assim: agem como se não tivessem dado por isso. Estilo estou tão ocupado (a) quem nem dei pela tua falta de consideração. É que, sabes, tenho tantas coisas mais interessantes a acontecer na minha vida. Também não mostram quando precisam de ajuda porque estão acostumadas a  resolver tudo sozinhas, pela velha lógica "se queres uma coisa bem feita, trata disso pessoalmente".

Tudo isto é verdade e é saudável, porque o mundo já está cheio de gente deslumbrada, impressionável, fraca, servil, sem espinha dorsal e carente. Não precisamos de mais. 

    Só é preciso não exagerar porque há quem tome tudo isso por passividade, tolice ou desculpa para fazer das pessoas assim burros de carga ou bombos da festa: afinal os indivíduos fortes, imperturbáveis e que não têm medo de nada nem perdem a calma por coisa alguma aguentam tudo, resolvem mundos e fundos e não vão descer das tamancas por coisas pequenas.

Lamento, meus amigos poderosos e blasé, mas face ao terrível estado a que a sociedade chegou, às vezes um rolar de olhos, o erguer de sobrancelhas, o empinar de nariz e o desprezo nítido não bastam: há que ser um bocadinho mais expressivo.

As coisas andam de tal ordem que os cínicos também precisam, para seu próprio bem, de cair naquela coisa lamechas de estar em contacto com as suas emoções. Num mundo de bebés chorões, de reality shows, de pessoas caprichosas que não têm medo de mostrar as suas fraquezas, de pedir favores, de expor ao mundo os coitadinhos que são ou de fazer figuras de urso, a subtileza pode ser uma linguagem muito mal compreendida. Não é culpa vossa e não é preciso cair no extremo em Roma, sê romano, mas  há que explicar as coisas de forma que as pessoas descaradas e choronas entendam.

 Ou seja, se uma coisinha, ainda que muito pequena, não vos caiu bem, explicai-vos. Se algo vos incomoda, reconheçam-no e exponham o assunto a quem causou essa maçada.

 Fica o problema resolvido, não vos caem os parentes na lama e a pessoa em causa saberá que não pode simplesmente dizer e fazer o que lhe apetece, contando com a vossa cómoda superioridade. Bem diz o povo: quem não se sente não é filho de boa gente.

 Ser impassível atrai respeito -  mas saber deixar de o ser quando é preciso, também.


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