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Thursday, January 22, 2015

O intolerável modismo do gin.


Eu nada tenho contra ou a favor do gin - é uma bebida branca como qualquer outra, já a tomei ocasionalmente nesta ou naquela festa, não gosto nem desgosto, mas é mais frequente receber olhares curiosos por pedir uma água tónica com gelo e limão, sem gin.

 Porém, começa a entrar-me nos nervos... não o gin (mal seria!) mas a mania do gin. 

O gin - tal como em tempos idos (mas recentes) os maccarons, os cupcakes, o sushi, os sumos detox, as papas de sementes, a Bimby e outros modismos muito trendy que atacam fortemente a fatia mainstream da população quero-ser-urbana-e-não-me-conformo-com-ter-nascido-nas-saias-da-cidade, super wannabe cosmopolita -  tornou-se, de repente, de rigueur



Qual sake qual carapuça: o cúmulo é sushi com gin. Se ainda não inventaram outra entretanto.

É como se de um momento para o outro fosse obrigatório não só desatar a beber gin, ir aos restaurantes e bares especializados no dito cujo, ser um entendido em gin, mas jurar aos pés juntos que toda a vida - toda a vida, senhores - se bebeu tal.

Queiram desculpar os que toda a vida o beberam mesmo e agora se limitam a ter mais sítios onde apreciar um gin tónico.

A todos os outros, tenho de dizer que não há propriamente mal em aderir à moda, se realmente se gosta da bebida, ou em começar a apreciá-la se nunca se tinha reparado nela antes. Mas é escusada essa afectação ridícula, essa adoração bacoca, esse desejo de mostrar que o gin sempre fez parte da sua existência. É que até parece mal.

"Ai, eu sempre gostei muito de gin, nunca bebi outra coisa" dizem os que aprenderam a gostar, ou fingem que gostam, aos amigos de sempre. 

E os amigos, coitados, lá têm de fingir também, por cortesia, que não se lembram dos tempos em que a bebida de eleição era a caipirinha, o licor beirão, o vodka laranja, o whisky cola, os shots de tequilla, os mojitos, o bacardi com não sei quê e outras que agora não me ocorrem (ia jurar que alguns enfardavam cocktails enjoativos com Blue Curaçao ou Pisang Ambon, mas como sou uma nódoa na matéria, não posso).

 Desculpem lá mas quem faz isso está insultar, na cara, os seus amigos de bêbedos: vulgo este (a) entornava-se de tal maneira que já não se vai lembrar que eu nem sabia o que era o gin.



Detalhe de "Gin Lane", gravura de William Hogarth (1751)
Quem os ouvisse, com tais ares de connoisseurs, diria que já bebiam gin no sec. XVIII, quando ele deu grandes problemas de saúde pública em Inglaterra e era -nota bene, meninas e meninos muito trendy - não uma bebida para inglês ver, mas a zurrapa das classes mais desfavorecidas. O ópio do povo, um afogar de mágoas barato que garantia uma bebedeira rápida e eficaz. Até foi criada uma legislação especial para lidar com o flagelo.

 Pois é, andava tudo atordoado com o gin tal como hoje, mas de uma maneira menos fashion...será que estas pessoas se lembram disso quando se ufanam de pedir gin?

E ponto, agora já não consigo olhar para quem o faz sem me sentir transportada para as vielas malcheirosas de Londres de 1700 e bolinha. Thanks a lot.






3 comments:

Miguel Godinho said...

Tem graça... era o que os membros do partido bebiam no 1984 do Orwell... Não acrescenta nada à discussão, mas foi essa a minha primeira observação quando dei conta desta tendência...

Imperatriz Sissi said...

Boa observação! Esse livro marcou-me bastante mas não me recordava desse detalhe. Obrigada

O lado B da blogger feliz said...

É tão isso! De repente tooooda a gente desatou a beber gin ou a mostrar que o bebe. Até podem detestar mas como quem quer estar in tem que beber gin, há que fazer o sacrifício.
Carneirinhos, é só o que me ocorre.

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