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Wednesday, September 23, 2015

A doença do "nada é errado se te faz feliz"





No sec. XVI escrevia Maquiavel, a quem a Humanidade nunca enganou: "julgam-se as acções dos homens pelo seu sucesso. A plebe deixa-se arrastar apenas pela aparência e pelo sucesso das coisas; e no mundo só há plebe".

Por "plebe" aqui entenda-se não uma "casta", mas a atitude volúvel e influenciável do público, sempre pronto a admirar o que reluz, a entreter-se com pão e circo, a deixar-se enganar pela voz da moda ou a mudar as suas lealdades conforme as conveniências. "No mundo só há plebe" porque os sentimentos nobres e elevados são raros, porque se confunde honrarias com honra, porque se despreza a elegância interior em prol de vencer a todo o custo - mesmo à custa da própria dignidade. E se esse comportamento "próprio de um vilão" era comum no Renascimento, que dizer no nosso tempo de extremo materialismo e relativismo?

 Basta ler jornais, prestar atenção aos comentários deste e daquele, para ver em todo o lado ideias como:

"Nada é errado se te faz feliz", "ele rouba, mas ao menos faz", "o que importa é ser feliz/ter amor no coração", "é um vigarista, mas está bem na vida", "no amor e na guerra vale tudo menos tirar olhos", "só Deus pode julgar" e assim por diante.

Todas essas máximas estão em voga porque dão jeito a quem
quer cometer os seus pecadilhos, as suas trapaçazinhas, sem grandes remorsos; adormecem o auto julgamento, calam consciências, ajudam a esquecer a ética, o dever e o altruísmo.



Nero também sorriu à brava quando atirou os Cristãos aos leões!

Mas comprar e propagar tais frases aparentemente inofensivas é como 
entupir-se de guloseimas esperando que lá porque sabem bem, não façam mal.

É claro que há coisas que até podem fazer alguém feliz, mas são profundamente erradas. Mesmo se quem as comete, levando tudo à frente, tem "amor no coração".  Hitler ficou felicíssimo quando invadiu França e o resto...por amor à Alemanha! Um ladrão fica todo contente se um assalto a um banco é bem sucedido....por amor à sua bolsa e às coisas a que se acha com direito. Uma desvairada que queira roubar o marido a outra, ou um galã que queira fugir com a mulher alheia, ficam loucos de alegria se destroem uma família...e desculpam-se "que é o amor".

E quanto ao valer tudo menos tirar olhos, é bom lembrar que a liberdade que é tão bonita termina onde começa a dos outros e que os lesados podem sentir-se no direito de aplicar a Lei de Talião - olho por olho, dente por dente, e o mundo torna-se uma selva...

Maquiavel tinha razão ao constatar que a populaça se deixa deslumbrar pela ideia de sucesso, por mais baixa origem que esse sucesso tenha. Mas nunca disse que isso era uma coisa boa. Só analisava a maneira de tirar partido dessa realidade deprimente.







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